28 de fevereiro de 2016

PANELAÇO

Por Gerson Moyses - Na última terça-feira (23/2/16), assisti ao programa do Partido dos Trabalhadores, na TV, em meio a um grande panelaço - que nunca antes foi tão intenso e duradouro, pelo menos no bairro onde moro, na capital paulista. O som de panelas, frigideiras, vuvuzelas, apitos, xingamentos e palavras de ordem contra o PT e o governo foi a trilha sonora do (absurdo) programa.
O tom foi de absoluto otimismo. E, a mensagem, que tentou ser passada, foi que as atuais crises econômica, moral e social, nas quais estamos metidos até o pescoço, são virtuais e apenas questão de postura e percepção pessoal.
“As pessoas que falam em crise, crise, crise repetem isso todo o dia e ficam minando a confiança do nosso pais” - essa foi uma das falas do ex-presidente Lula. Vamos acabar com o mau humor! Vamos parar de reclamar! Somos um povo alegre e que gosta de carnaval! - foram outras mensagens transmitidas. 
Bem, dois dias depois (25/2/16), assisti ao programa do PMDB, também em rede nacional de TV. O tom foi de críticas à condução do país durante a crise. O vice-presidente Temer, solenemente, falou como se ele e seu partido não participassem das decisões do governo há 13 anos, como se o PMDB não fosse da base governista e como se não ocupasse sete ministérios. E aqui também foi dito que “o sentimento de desconfiança, abatimento e pessimismo das pessoas é natural, mas não ajuda o Brasil a sair da crise”.
Oras bolas, concordo que o otimismo é um sentimento nobre. Mas, quando todas as agências de risco rebaixam a nota do Brasil, quando os juros vão às alturas, quando a inflação explode, quando o investimento fica paralisado, quando o desemprego só aumenta e atinge milhões de pessoas, quando não há responsabilidade fiscal, quando a economia derrete de o PIB atinge os piores níveis da história, quando o Aedes aegypti espalha doenças letais e que limitam a vida de milhares de pessoas, quando o mar de lama da Samarco destrói (literalmente) comunidades, vidas e o meio ambiente, e quando o mar de lama da política (agora no sentido figurado) destrói o presente e o futuro do País, não dá para acreditar que o pensamento positivo, que as boas energias, que a alegria e o sorriso do povo sejam soluções. Essas até podem ser terapias coadjuvantes, mas não resolvem absolutamente nada.
Em algum momento, durante o programa do PMDB, baixei o volume da TV para tentar ouvir se havia alguma manifestação. Silencio absoluto. O panelaço de dois dias atrás simplesmente não se repetiu. (Por um instante pensei em começar a bater panelas, mas por temer ser o único, preferi não fazer).
Qual o motivo da intolerância absoluta com o PT e a tolerância (ou indiferença) com o PMDB? Qual a real diferença entre esses partidos? Talvez as pessoas não percebam a relação direta entre os dois casos. Talvez acreditem no discurso de que o PMDB pode promover a união e o diálogo na proposição de ações para superar a crise. Talvez o marketing político ainda funcione para o PMDB. Talvez achem que qualquer coisa é melhor que o PT. Sei lá. Fato é que todos são igualmente responsáveis pela desastrosa situação. Como já afirmou o amigo Danilo Rizzo, "NÃO HÁ VIRGENS NO PUTEIRO"!
Para concluir, mais algumas provocações: por que não há panelaço para os escândalos da merenda escolar e do metrô paulistas, para a amante do FHC, para a crise da saúde no Rio de Janeiro, para o mensalão tucano, e para a infinidade de escândalos e roubalheiras que surgem todos os dias?

14 de fevereiro de 2016

99% MIMADO E 1% SAFADÃO

Imagem: www.youtube.com
Por Danilo Rizzo – Há tempos tratei desse tema aqui no blog ao publicar o texto A CIVILIZAÇÃO DOS MIMADOS, para tentar ilustrar algumas atitudes das quais custo a aceitar no convívio social... E não me refiro a questões terminativas como discutir o limite do convívio social de quem mata alguém. A proposta inicial era discutir algo mais sutil, expondo ultrajes cotidianos – não que assassinato não seja algo cotidiano nesse país – motivados por desejos individuais que mesmo os auto proclamados homens de bem cometem.
A discussão sobre moral e ética nunca esteve tão em ebulição como está hoje, e eu já escrevi isso antes... Também já escrevi que tanto uma quanto outra - moral e ética – têm vínculo estreito com o próprio ser, com cada um de nós, e é ai que nossa evolução social e pessoal está patinando.
Minha busca trouxe alguns conceitos interessantes sobre o termo ‘mimado’. O dicionário define a pessoa mimada como aquela que é muito protegido pelos pais ou algum parente, que recebe muitos agrados, que sempre pedi ajuda aos pais e geralmente não tomam decisões sozinhas. Alguns blogs voltados para a discussão psicológica tratam o ‘mimo’ como doença, e elegem alguns traços presentes no comportamento de todos os mimados: reatividade, exclusivismo, parcialidade, egocentrismo, pessoalismo, e imediatismo. Percebam que por traz desses conceitos está a incompetência flagrante no controle do que se deseja. Fazendo um exercício rápido e superficial dos nossos problemas cotidianos mais explícitos, notamos claramente a presença massiva de pessoas mimadas ao nosso redor. Pessoas de moral inconsistente e de conduta aderente aos conceitos da ética da conveniência, que eventualmente fazem mais mal há quem está ao seu redor, do que um assassino que hoje vive encarcerado. Novamente, a proposta não é discutir o óbvio, mas sim o que poucos veem, ou o que a maioria não quer ver.
Evitemos o ambiente político-policial que está em maior destaque, e passemos a observar atitudes diárias, como atravessar a rua. Meu trajeto casa trabalho é curto, cerca de 5KM, e nesse pouco tempo, consigo me deparar com pedestres servidos de faixa de segurança a cada esquina, se aventurando a atravessar a rua no meio de quarteirão. Esta é ou não atitude de uma pessoa doente, que falhou ao tentar controlar seu desejo, e não nota que coloca a vida de diversas pessoas em risco (inclusive a própria) em prol da conveniência de atravessar a rua onde bem quiser. Lembrando-se dos traços psicológicos dos mimados, no exemplo que descrevi o exclusivismo, a parcialidade, o egocentrismo, o pessoalismo, e o imediatismo saltam aos olhos... Chegam a agredir. Eu poderia utilizar incontáveis outros exemplos para explorar o conceito do ‘mimo’ na sociedade contemporânea... Não usar seta, exceder limite de velocidade, não devolver o troco dado a mais, gatoNet, esperar que o Estado dê o exemplo, etc. Pensar que mimada é apenas a criança que não empresta seu brinquedo é um erro a não se cometer, sob pena dessa doença impedir a evolução ética que se espera desse país, e que é nossa única salvação.
Ética tem tudo a ver com convívio, com compromisso, e com felicidade. Neste sentido, gosto muito da forma como Epicuro trouxe a termo sua ética. Dizia ele que a felicidade plena se dá pelo alcance do estado estável de prazer e equilíbrio, tranquilidade e ausência de perturbações, alcançada por meio do controle dos medos e desejos. De onde estiver, Epicuro deve nos olhar com dó.

24 de janeiro de 2016

FILHOTE DE PROTÁGORAS

Por Danilo Rizzo – Nos últimos dias tenho ouvido coisas que imediatamente me fazem lembrar uma galerinha das antigas que não eram lá muito próximos dos conceitos de ética.

Usualmente quando precisamos convencer alguém de algo, nos cercamos de bons argumentos para atingirmos nossos objetivos... Se não vejam como a publicidade nos vende seus produtos. Nada disso é novo, e nenhuma técnica de convencimento foi inventada pelo atual guru das vendas, tudo isso foi criado há vários séculos. O sofismo (sofisma) nasceu das técnicas ensinadas por professores de filosofia e retórica na Grécia antiga, porém com o passar dos tempos, uma conotação pejorativa foi aderida à palavra, devido à técnica passar a ser baseada por seus agentes em argumentos inválidos concebidos para apelar à emoção. Protágoras, Górgias e Pródico são apontados como os primeiros a usarem essa técnica de retórica, porém são conhecidos hoje apenas através dos escritos de seus oponentes (Sócrates, Platão e Aristóteles), que desafiaram os fundamentos filosóficos sofistas por entenderam tratar-se de um pensamento que procura induzir ao erro, apresentando aparente lógica e sentido, mas com fundamentos contraditórios e com a intenção de enganar.

Imagem: crato.org
Se por um lado a origem do pensamento sofista é pouco explorada, sua técnica perdura desde antes de Cristo e, por vezes, somos afrontados e agredidos por filhotes de Protágoras. Afinal, os sofistas eram considerados mestres nas técnicas de discurso, fazendo com que o interlocutor acreditasse rapidamente naquilo que falava, sendo verdade ou não, pois o principal compromisso está em fazer com que o público acredite naquilo que diziam, e não com a busca pela verdade. Quando alguém lhe diz que "Não tem uma viva alma mais honesta do que eu neste país" ou "Acabar com a fome é uma questão de tempo. Pouco tempo", saiba que estará diante de um sofista. Quando a discussão for sobre políticos e executivos presos na operação Lava Jato e uma das considerações for que “A situação hoje é mais difícil do que na Ditadura” ou que “O grande problema da delação premiada é que o grande prêmio para os delatores é envolver o Lula”, você está conversando com alguém que utiliza argumentos inválidos concebidos para apelar à emoção, e que apesar da aparente lógica, não tem compromisso com a verdade.

Desmascaram uma pessoa de má-fé como essa não é difícil, pois, como seu ponto fraco é o ego e a percepção sobre si mesmo, logo falam demais e soltam frases como "Tem hora em que estou no avião e, quando alguém começa a falar bem de mim, meu ego vai crescendo, crescendo, crescendo... Tem hora que ocupo, sozinho, três bancos com o ego"... Típico do sofista que não tem compromisso com a verdade. Quando lhe disserem que os filósofos já fizeram as perguntas mais importantes: Acredite. Quando lhe disserem que os filósofos já pensaram sobre as coisas mais importantes: Acredite também.

20 de dezembro de 2015

O IDH BRASILEIRO: AVANÇO INTERROMPIDO

Imagem: gazetadopovo.com.br

Por Gerson Moyses - Na última segunda-feira, a ONU divulgou seu relatório de desenvolvimento humano. O documento traz, entre outras informações, o ranking dos países. Essa classificação é feita a partir do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que varia de 0 a 1. O ranking divide os países em quatro categorias: "muito elevado", "elevado", "médio" e "baixo".

A medição do IDH é feita a partir de três indicadores, relacionados à população:
  • Expectativa de vida ao nascer (saúde),
  • Anos de estudo (educação),
  • Renda per capita (renda).
No topo do ranking de 188 países, está a Noruega (0,944), e na última posição, o Níger (0,348). Entre os países vizinhos, estão Venezuela (71º), Chile (42º) e Argentina (40º). 

No relatório deste ano, o Brasil melhorou sua nota (foi de 0,752 para 0,755), mas perdeu uma posição no ranking (foi da 74ª para a 75ª), ao ser ultrapassado pelo Sri Lanka.

Apesar da queda no ranking, a nota brasileira melhorou. Isso se deu por conta da melhora da expectativa de vida ao nascer e dos anos de estudo da população. O avanço não foi maior por que a renda per capta despencou no último ano, por conta da crise econômica.

A variação de uma posição em um ano pode não ser tão relevante, pois a diferença entre países com pontuação muito próxima é bem pequena. Na verdade, devemos nos atentar para a tendência. O Brasil, que desde 2009 vinha subindo no ranking, caiu em 2015. E isso é certamente resultado da grave crise econômica que estamos vivendo. O primeiro indicador a ser atingido é a renda, resultado do desemprego e das reposições salariais abaixo da inflação. Em 2015 só tivemos más notícias na economia: queda de receitas e aumento de despesas do governo, descontrole fiscal, aumento de impostos, queda do PIB, aumento da inflação, aumento do desemprego, duplo downgrade (até hoje), queda do Ministro Levi.

Se observarmos o cenário econômico futuro, que aponta para a retomada da chamada ‘nova matriz econômica’ (com o ministro Nelson Barbosa na Fazenda), corremos o risco piorar ainda mais a economia, e de continuar a cair no ranking do IDH nos próximos anos.

A economia é o propulsor do IDH. Sem dinheiro, não há saúde, educação e nem renda. Parafraseando o especialista em finanças, Mauro Halfeld, espero que em 2016 não tenhamos saudade de 2015.

Veja o ranking:

Imagem: folha.uol.com.br

13 de dezembro de 2015

JOSÉ, MAURÍCIO, E A ÉTICA DA CONVENIÊNCIA

Imagem: mistertube.com.br
Por Danilo Rizzo – José sempre teve uma vida justa, no limite. Quando criança, não entendia porque seu pai e mãe saiam de casa para trabalhar com seus uniformes, dividindo o ônibus com tantos outros uniformizados, enquanto o pai de seu vizinho, Mauricio, usava calça social e camisa, e ia para o trabalho dirigindo o próprio carro.
José precisou entrar numa universidade pública, porque seus pais não tinham dinheiro para pagar um curso particular. Na universidade, José foi acolhido pelos movimentos estudantis, repleto de pessoas que compartilhavam de sua visão, de que aquela era a única chance, e que o mundo é rude, cruel, e injusto. Mauricio, não. Mauricio não tinha tempo para pensar na crueldade do mundo... Eram tantas coisas novas, mulheres, carros, viagens, baratos, que tudo o que ele fazia era tentar consumir o máximo de tudo o que o mundo lhe oferecia, sem colocar seu curso em risco. Mas Mauricio sabia que se desse merda, seu pai o ajudaria.
Mauricio sempre votou nos partidos de direita, pois foi dito a ele que se um partido de classe assumisse o governo, tudo o que ele tinha seria tirado a fórceps. Por vezes alienado, ele entendia que a manutenção desse tipo de político no poder, era garantia de vida boa... Para ele. José foi conduzido a pensar, depois de sua experiência como líder estudantil, que a crueldade e injustiça do mundo que lhe apresentaram, vem do capital, e daqueles que o detém. Muito embora ele se solidarize a todos os que, como ele, tem vida simples, olha com carinho e afeto para a vida com mais riquezas.
Parece-me que de forma pacífica, podemos conceituar Ética como um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade, e sua função é assegurar que haja equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado... Há uma relação intima entre Ética e o sentimento de justiça social. Nesse contexto, e entendendo que nossos valores são engrenagens importantes nesse sistema, aparentemente José e Mauricio pertencem a grupos diferentes. Estão, de fato, em lados opostos. Mas nem tudo o que parece ser realmente é, e a conveniência é um indexador fortíssimo de valores éticos.
Mauricio, por muito tempo, viu seus representantes ditarem as regras tinha muito orgulho de vestir as cores do Brasil e, tão superficialmente como tudo em sua vida, confiava que seu país era o país do futuro. Era tão confiante que se apoderou do direito de estacionar em vagas de idosos, usar o acostamento, e sonegar impostos. Eu posso!!! Nessa mesma época, José sentia-se mais oprimido do que nunca. Sua vida melhorava fato jamais assumido. Para ele, tudo era fruto de seu trabalho, e a estabilidade econômica trazida pelo governo posto nada tinha a ver com isso. Um dia a balança mudou... Coisas da democracia. José, com o peito cheio de orgulho, se sentia representado por seu maior ídolo. José se via subindo a rampa do Planalto naquele 1º de janeiro. Naquele mesmo dia, Mauricio acordava tarde em sua casa de praia, sem saber se sua dor de cabeça era provocada pela ressaca da noite de réveillon, ou por ver aquele senhor desqualificado tomar posse. José, que se incomodava ao ver os desvios de conduta de Mauricio, passou a fazer o mesmo. Já que ele pode, eu também posso!
José se indignava ao ouvir Mauricio dizer, por oito convenientes anos, que os pedidos de impeachment contra seu presidente, eram golpes da oposição socialista, assim como entendia que os esquemas de corrupção deflagrados, eram jogo de cena dos mesmos invejosos oponentes. Hoje Mauricio se revolta, bate panela e vai às ruas, porque entende que a atual presidente deve renunciar, enquanto José assiste a tudo isso, bradando que é golpe da elite, e que se alguém tem que roubar, que sejam os do meu grupo.