13 de dezembro de 2015

JOSÉ, MAURÍCIO, E A ÉTICA DA CONVENIÊNCIA

Imagem: mistertube.com.br
Por Danilo Rizzo – José sempre teve uma vida justa, no limite. Quando criança, não entendia porque seu pai e mãe saiam de casa para trabalhar com seus uniformes, dividindo o ônibus com tantos outros uniformizados, enquanto o pai de seu vizinho, Mauricio, usava calça social e camisa, e ia para o trabalho dirigindo o próprio carro.
José precisou entrar numa universidade pública, porque seus pais não tinham dinheiro para pagar um curso particular. Na universidade, José foi acolhido pelos movimentos estudantis, repleto de pessoas que compartilhavam de sua visão, de que aquela era a única chance, e que o mundo é rude, cruel, e injusto. Mauricio, não. Mauricio não tinha tempo para pensar na crueldade do mundo... Eram tantas coisas novas, mulheres, carros, viagens, baratos, que tudo o que ele fazia era tentar consumir o máximo de tudo o que o mundo lhe oferecia, sem colocar seu curso em risco. Mas Mauricio sabia que se desse merda, seu pai o ajudaria.
Mauricio sempre votou nos partidos de direita, pois foi dito a ele que se um partido de classe assumisse o governo, tudo o que ele tinha seria tirado a fórceps. Por vezes alienado, ele entendia que a manutenção desse tipo de político no poder, era garantia de vida boa... Para ele. José foi conduzido a pensar, depois de sua experiência como líder estudantil, que a crueldade e injustiça do mundo que lhe apresentaram, vem do capital, e daqueles que o detém. Muito embora ele se solidarize a todos os que, como ele, tem vida simples, olha com carinho e afeto para a vida com mais riquezas.
Parece-me que de forma pacífica, podemos conceituar Ética como um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade, e sua função é assegurar que haja equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado... Há uma relação intima entre Ética e o sentimento de justiça social. Nesse contexto, e entendendo que nossos valores são engrenagens importantes nesse sistema, aparentemente José e Mauricio pertencem a grupos diferentes. Estão, de fato, em lados opostos. Mas nem tudo o que parece ser realmente é, e a conveniência é um indexador fortíssimo de valores éticos.
Mauricio, por muito tempo, viu seus representantes ditarem as regras tinha muito orgulho de vestir as cores do Brasil e, tão superficialmente como tudo em sua vida, confiava que seu país era o país do futuro. Era tão confiante que se apoderou do direito de estacionar em vagas de idosos, usar o acostamento, e sonegar impostos. Eu posso!!! Nessa mesma época, José sentia-se mais oprimido do que nunca. Sua vida melhorava fato jamais assumido. Para ele, tudo era fruto de seu trabalho, e a estabilidade econômica trazida pelo governo posto nada tinha a ver com isso. Um dia a balança mudou... Coisas da democracia. José, com o peito cheio de orgulho, se sentia representado por seu maior ídolo. José se via subindo a rampa do Planalto naquele 1º de janeiro. Naquele mesmo dia, Mauricio acordava tarde em sua casa de praia, sem saber se sua dor de cabeça era provocada pela ressaca da noite de réveillon, ou por ver aquele senhor desqualificado tomar posse. José, que se incomodava ao ver os desvios de conduta de Mauricio, passou a fazer o mesmo. Já que ele pode, eu também posso!
José se indignava ao ouvir Mauricio dizer, por oito convenientes anos, que os pedidos de impeachment contra seu presidente, eram golpes da oposição socialista, assim como entendia que os esquemas de corrupção deflagrados, eram jogo de cena dos mesmos invejosos oponentes. Hoje Mauricio se revolta, bate panela e vai às ruas, porque entende que a atual presidente deve renunciar, enquanto José assiste a tudo isso, bradando que é golpe da elite, e que se alguém tem que roubar, que sejam os do meu grupo.

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