13 de setembro de 2015

EU SOU NORMAL!

Por Danilo Rizzo – Este era o bordão repetido pelo eterno Francisco Milani, nos idos de 1980, quando interpretava um personagem engraçadíssimo no excelente programa “Viva o Gordo”. Naquele contexto, Milani – ou seu personagem - dizia e fazia as coisas mais absurdas como se fossem normais.
Imagem: johnson-center.org
Embora nossa espécie tenha características comuns a todos, cada um de nós é único em sua existência. O conceito de normalidade é, portanto, uma criação convencionada, gerada ao longo dos séculos, pela sociedade e exercitada pela Igreja, pelo Estado, pelas instituições de ensino, pela ciência, pela tecnologia, etc., que precisam utilizar padrões para orientar suas atuações. Um exemplo comum dos meus tempos de universidade é que matar pode ser considerada uma atitude dentro das normas estabelecidas, no entanto, afronta o conceito de bom – normal neste caso - e ruim, no sentido de ser mau.
A sociedade pós-moderna – ou nós - vive tempos onde “foco” é a palavra de ordem nas escolas e no mercado de trabalho. Para vencer na vida, a dispersão de atenção para outros interesses além das tarefas do dia a dia é não apenas mal vista, mas diagnosticável como um transtorno mental passível de cura. Novamente nos vemos diante de padrões estabelecidos pela sociedade, já que para aquele sírio que neste momento enfrenta o Mar Mediterrâneo dentro de um precário barco, vencer na vida é simplesmente chegar vivo na costa da Itália ou da Grécia. Definição que, claramente, eu ou você não aplicaríamos para o mesmo termo. Qualquer desvio de “foco” é categorizado. Convivemos comumente com nomenclaturas, ou rótulos, como TOC, DDA, hiperatividade, bipolaridade, ansiedade, etc. Como imagem é tudo hoje em dia, foi preciso suavizar a ideia de “doença mental”, classificando tais anomalias sob o guarda chuva dos “transtornos”. Não sei ao certo qual a intenção disso, talvez a de preservação, afinal, basta observar nosso entorno para notar que estamos mais preparados para aceitarmos o convívio social com alguém que sofre um transtorno, do que com um doente mental.
Uma das consequências disso, além de gerar um brutal mercado, é o fato de que, para atendermos esses padrões, buscamos ordem para nossas desordens e, em nome dos resultados do estudante e do trabalhador, nós nos medicamos... Cada vez mais, by the way. Li recentemente um artigo que destacava que, nos Estados Unidos, o número de pessoas sob algum tipo de tratamento desses transtornos elevou-se 35 vezes, da década de 1980, até os dias de hoje. Ainda, segundo o NIMH, 46% da população se enquadrariam nos critérios de doenças estabelecidos pela Associação Americana de Psiquiatria. Sob o mantra do “foco no resultado”, são medicados desde pessoas com crises agudas de ansiedade até crianças com graus leves de hiperatividade. A pressão desde muito cedo gera um consumidor habitual e a criança usuária de medicamentos psiquiátricos se tornará um adulto dependente de remédios para dormir.
Novamente me questiono como foram classificados esses transtornos, e quais aspectos fazem com que determinado comportamento seja considerado normal, e outro passível de tratamento? Por que devo aceitar que uma criança com foco na sala de aula é normal e uma desconcentrada é anormal?
Inovação e criatividade pressupõem liberdade, e imagino o que teria ocorrido se os pais do Pelé tivessem tratado sua hiperatividade quando ele ainda era garoto, e só pensava em jogar futebol. Se for a normalidade da sociedade pós-moderna, o padrão que tanto buscamos, estaremos, diariamente abrindo mão de pessoas capazes de mudar nosso mundo, para termos dóceis e artificialmente felizes funcionários-padrão. Jobs, Gates, Einstein, Newton e Beethoven sofriam algum transtorno, de socialização, comunicação, ou aprendizado e, em algum grau, também apresentavam espectro de autismo. Só posso dizer que tivemos sorte por esses quatro gênios não terem frequentado a sala de aula de hoje em dia.

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