14 de setembro de 2014

ACHO QUE NÃO VAI DAR

Por Danilo Rizzo – Nós vivemos, de fato, um punhado de bons momentos. Digo nós, brasileiros. Com o plano real e a consequente estabilidade econômica, nos foi dado acesso a itens de consumo dignos de sonho, mas também a itens básicos, que fariam Maslow sentir orgulho de nós. Mas – e sempre tem um – acho que, ainda assim, não vai dar.
Qualquer país que se coloca rumo ao desenvolvimento necessita de mão de obra qualificada, seja para apertar um parafuso, seja para chefiar um novo projeto Manhattan. E a parte que nos cabia nessa ascensão, enquanto sociedade, era a de estarmos preparados para apertar um parafuso da forma mais eficiente, ou produzir a bomba atômica mais badass já feita. E acho que não vai dar porque, depois da estabilidade econômica nos ter feito decolar, chegou nossa vez de ajudar, e estamos falhando miseravelmente. Simples assim, o paralelo com o avião vale, na medida em que para tirar um avião do solo é preciso a potência plena de suas turbinas, mas, uma vez em velocidade de cruzeiro, a força total só faz gastar combustível, não sendo preciso acelerar ao máximo para se manter uma velocidade razoável.
foto: wewritetogether.net
Nosso papel era de manter o avião em velocidade de cruzeiro, e para isso, tivemos a brilhante ideia de tornam os cursos superiores mais acessíveis. E faço questão de frisar que os tornamos acessíveis, mas não atraentes. Num recente congresso de profissionais de recursos humanos, uma das principais questões debatidas foi: O Brasil continua formando profissionais para mercados inexistentes. O resultado dessa falta de pontaria é que não há profissionais graduados que atendas as necessidades de mercado, e quando há, esse profissional é remunerado além do mercado, o que gera um efeito cascata negativo para aquela classe de profissionais. E falta de motivação e engajamento são inversamente proporcionais à produtividade.
Outro dado, talvez mais crítico, foi o que concluiu uma pesquisa do IPM. Segundo esse exame, quatro em cada dez estudantes do ensino superior no Brasil não são "plenamente alfabetizados", ou seja, não conseguem interpretar um texto, gráficos ou tabelas, nem fazer contas matemáticas um pouco mais complexas, como por exemplo, as que envolvem porcentagens. E se você se viu dentro desse filão, saiba que a culpa não é sua. Em poucas palavras, se o aluno não domina satisfatoriamente sua língua nativa e matemática, que são ferramentas básicas, não há avanço para a aprendizagem de conteúdos mais complexos.
Nesse momento, como você é brasileiro, otimista, você pensa: Mas as coisas estão mudando!!! Eu lhe digo, de forma tão fria e dolorida como uma chuva de granizo, que você está errado... redondamente. Fechamos 2013 com um crescimento de 3,8% no número de alunos matriculados em universidades, mas esse indicador só serve para campanha política. O indicador que vale para a vida real é outro, é o de formados. E esse, no mesmo período, caiu 5,7%. Ou seja, as pessoas entram na faculdade, mas não saem formados. E eu ainda não terminei. No último mês de abril, a revista britânica Times Higher Education divulgou o ranking das 100 melhores universidades do mundo, e só há uma brasileira, a USP, que em 2013 estava entre a 61ª e 70ª colocações, e que em 2014 caiu para o grupo entre 81ª e 90ª.
O que vocês concluíram eu não sei. Só sei que desde a infância nós somos mal educados, e dos poucos que conseguem chegar à faculdade, muitos estão mau preparados. Os que conseguem se formar, provavelmente já estarão desatualizados em relação às melhores práticas daquela profissão, o que os fará frustrados, desmotivados, desinteressados. A educação e qualificação da mão de obra é peça fundamental no motorzinho do crescimento sustentável desse país, e nesse aspecto, falhamos miseravelmente.

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