6 de abril de 2014

A INFLAÇÃO DE INSENSATEZ

Por Osvaldo Martins Rizzo (*1950 +2010)

“Nunca houve um líder neste continente com a capacidade de desafiar temas do mundo como o [Hugo] Chávez” (Fernando Henrique Cardoso).

Se conceituarmos inflação como sendo dinheiro farto disputando bens escassos, parece que a economia mundial vive o prólogo de outro surto inflacionário. Diariamente, trilhões de dólares vagam pelo planeta disputando poucos ativos. Sem outra opção, recentemente uma migalha desse gigantesco volume de recursos aportou no liliputiano mercado nacional de capitais, cuja quase totalidade das operações diárias limita-se à negociação das ações de cerca de duas dúzias de empresas.
Foto: urbanmedic.blogspot.com
A demanda excedeu a oferta inflando o preço dos papéis feito uma bolha. Articulistas a serviço de especuladores creditaram a forte alta anual do índice Bovespa à confiança no próspero futuro da economia brasileira. Quanta insensatez! A causa foi a farta liquidez internacional que, agora, está secando.
Atentos empresários do setor imobiliário viram a brecha de oportunidade e abriram o capital das empresas vendendo ações por preços inflados. Segundo análise da Capital Partners, na média, o preço de venda foi quase seis vezes maior que a previsão de lucro. Hoje, a construção é o setor acionário mais arriscado para o investidor, revela estudo da Cyrnel International alertando que o risco médio da carteira da Bovespa é três vezes menor que o dessas ações apelidadas de junk bonds no linguajar do pregão.
Capitalizadas, as neocorporações tupiniquins invadiram as grandes cidades disputando terrenos, inflacionando seus preços. A parte rica da zona sul da capital paulista não escapou dessa insensatez. Contrastante, essa região lembra a Calcutá da Madre Tereza, pregando a justiça social entre as castas indianas, e propicia imagens chocantes como as das favelas refletidas nas espelhadas fachadas dos nababescos prédios vizinhos. Estima-se que um em cada cinco paulistanos habita favela ou cortiço, e erros crassos de engenharia, somados à desmedida inépcia do poder público, criam quilométricos congestionamentos transformando as avenidas locais no maior estacionamento a céu aberto do mundo.
Nessa região, uma dessas corporations armou uma obscura “parceria” com a prefeitura para remover centenas de favelados de uma área adjacente ao terreno onde erguerá outro luxuoso condomínio residencial. Temendo que a vizinhança miserável causasse asco nos interessados na compra do imóvel, a empresa usou funcionários municipais para tentar remover os favelados em troca de dinheiro.
Deveras, indiretamente pretendia apropriar-se do bem público. Abusando da autoridade a eles delegada pelo povo, os desqualificados servidores públicos oprimiram moralmente os favelados fixando prazo para a desocupação da área sem sequer existir ordem judicial de reintegração da posse do imóvel.
Se na noticiada apuração do caso pelo Ministério Público a empresa restar denunciada, exercendo suas atribuições de guardiã da transparência do mercado de capitais, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) terá que examinar se o balanço foi maquiado para ocultar o passivo da remoção dos sem-teto, identificado como perda não relatada (unreported loses). Ademais, acompanhará se a flagrante ilegalidade causou perdas patrimoniais aos acionistas, com a eventual queda do volátil preço da ação negociada em pregão. Insensatas práticas de gestão como essa elevam ainda mais o já sideral risco acionário do setor.
A poucos quilômetros dessa área – onde luxuosos apartamentos são vendidos a insensatos que pensam que morarão com segurança –, a miserável periferia do vizinho município de Osasco acolhe uma comunidade de sem-tetos conhecida pelo nome do guerrilheiro capitão Carlos Lamarca. Constitui-se em um dos muitos agrupamentos batizados de Conselhos Comunais (“Consejos Comunales” em espanhol) espalhados pelos marginalizados subúrbios das grandes cidades brasileiras (inclusive no Rio de Janeiro). Essas organizações populares vêm divulgando a justiça social na Venezuela principalmente entre jovens brasileiros excluídos da injusta ordem econômica vigente no país.
Abastecidos por farto material oficial que faz a apologia do paraíso populista no país liderado pelo coronel Hugo Chávez, esses conselhos populares recebem nomes de mártires da guerrilha urbana como Marighella, por exemplo. Recrutando milhares de pessoas, introduzem-nas, inclusive, nas práticas treinadas pelos membros do enorme exército venezuelano de reservistas civis do uso do fuzil Kalashnikov.
Assim, enquanto a especulação imobiliária manda nas políticas urbanas e oferta luxos rodeados de misérias, o vice-presidente da Conferência Episcopal da América Latina, arcebispo Baltasar Porras, alerta que Chávez é produto do cansaço popular com as elites alheias à realidade que as rodeia.

O presente artigo foi originalmente publicado em 08/01/2008 no site Congresso em Foco. Clique aqui para acessar a publicação original.

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