24 de junho de 2013

PRIMAVERA TROPICAL: SERÁ QUE HÁ ESPERANÇA?

Por Gerson Moyses
Nas últimas semanas, centenas de cidades brasileiras estão vivendo e convivendo com as manifestações que inicialmente tinham um objetivo específico, mas que tomaram uma dimensão que não se imaginava - o movimento já está sendo chamado pela imprensa internacional de ‘Primavera Tropical’. No início das manifestações havia descrédito e até certa antipatia para com os manifestantes. Na sequência veio o apoio, reforçado após a ação desastrada da polícia militar em São Paulo. O movimento então passou a ter uma enorme adesão, além da simpatia de grande parte da população e dos meios de comunicação. Percebo agora novamente certa irritação com o movimento, devido à extensão e aos desdobramentos que vêm prejudicando a rotina das cidades.
foto: www.folha.uol.com.br
Para tentar explicar o que está acontecendo, todo tipo de opinião vem sendo emitida. Em praticamente todas as análises focou-se o conteúdo (inicialmente a péssima qualidade do transporte público e o alto preço das passagens, e depois a corrupção, o descaso, e a ineficiência, além dos desmandos e dos absurdos governamentais – que são causas ou as motivações) ou a forma das manifestações (as passeatas, a obstrução de vias importantes, as depredações do patrimônio público e privado, as mortes e a violência – que são efeitos imediatos).
Gostaria de analisar esse fato, citando o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Ele propôs o conceito de ‘Modernidade Líquida’, ou seja, as diversas esferas da sociedade contemporânea (vida pública, vida privada, e relacionamentos humanos) passam por uma série de transformações que vêm esgarçando o tecido social. O primeiro sintoma é a perda de solidez das instituições sociais - elas se “liquefazem”, tornando-se fluidas e amorfas. Observa-se então o desapego, a provisoriedade e a individualização. As pessoas têm uma crescente sensação de insegurança e de impotência. Neste contexto, as relações são mercantilizadas, e os laços de afeto têm grande possibilidade de serem desfeitos frente a qualquer desagrado das partes. O resultado: vivemos um tempo em que o individualismo é exacerbado, e a desordem e a violência são rotineiras e banais. Isso gera a percepção que vivemos em uma "terra-de-ninguém".
Será que há esperança? Acho que não. Para embasar essa primeira hipótese, gostaria de citar duas obras emblemáticas: ‘O senhor das moscas’ (de William Golding) e ‘A revolução dos bichos’ (de George Orwell). Ambos os livros apresentam histórias de grupos que, de uma ou de outra maneira, se libertaram de seus injustos opressores, e iniciaram a construção de uma sociedade organizada, mais igualitária e equitativa. Deu errado. Os libertários tornaram-se tão ou mais cruéis que seus opressores (e talvez com as melhores intenções!). Isso aconteceu, pois o individualismo e a competitividade são marcas intrínsecas do ser humano, salvo raríssimas exceções. “Cada ser humano é um microcosmo”, disse o filósofo Demócrito, e esse microcosmo é governado por uma autoridade interna. Ela por muitas vezes é subjugada, e torna-se vítima de ‘auto-emboscadas’ e de ‘auto-boicotes’. Esse comando interno compromete seriamente a capacidade de ouvir e de negociar. Assim, a capacidade de falar e de se impor prevalece e emerge violentamente. Agora responda sinceramente: quem realmente assume seus erros? Quem olha uma situação de embate ‘de fora’, sem considerar suas experiências, suas preferências, suas referências, seus valores e seus preconceitos (por mais errados e absurdos que sejam)? Quase ninguém. “Ninguém é bom juiz em causa própria”. E voltando às manifestações, percebemos como resultado prático do ‘governo da autoridade interna’ a interrupção da ordem política, social e econômica. Esse é um cenário em que ninguém ganha.
Pergunto novamente: será que há esperança? Agora respondo “acho que sim”. Para embasar essa segunda hipótese, gostaria de citar o livro ‘Auto-engano’ (de Eduardo Gianetti). Ele propõe inicialmente que enquanto houver individualismo e intolerância, todos perdem – e mais cedo ou mais tarde isso é percebido. Como caminho para por fim a essa queda de braço, deve-se buscar a preservação máxima da liberdade para o exercício da autonomia individual, mas também a garantia do respeito às regras impessoais, para que se reduzam ao mínimo o dano e o atrito nas relações interpessoais. Os grandes riscos e as ameaças estão nos excessos cometidos por ambos os lados (governos e polícias; e manifestantes). Se a má convivência compromete a liberdade, o excesso de liberdade compromete a convivência. O desafio reduzir a distância entre os extremos é equilibrar essa balança. Não é fácil, ainda mais numa “sociedade líquida” em que nenhuma certeza será absoluta, e todo avanço poderá retroceder. Já avançamos em muitos aspectos (já não somos canibais, não mais queimamos hereges na fogueira ou apedrejamos mulheres adúlteras no meio da rua, golpeamos a inflação e sentimos que o desenvolvimento do País é possível), e esse é um indicador de que é possível progredir. De qualquer forma, não há outra opção senão seguir em frente. E é urgente continuar avançando sob pena de comprometermos o futuro sustentável do País, o bem-estar e a esperança das próximas gerações.

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