28 de junho de 2013

HUMAN FACTOR, EPISÓDIO 46664 - NÃO HÁ CAMINHO FÁCIL PARA A LIBERDADE

Por Danilo Rizzo
O Brasil sempre foi rotulado como país onde o preconceito racial, social, sexual, eram moderados ou, para os mais otimistas, não existia. Faz algum tempo que esse conceito mudou por aqui, porque nunca foi verdade ou porque as pessoas passaram a declarar ódio por seus ‘diferentes’. Fato é que pipocam frequentes denúncias de crimes dessa natureza desde as esferas mais altas até as mais necessitadas de nossa sociedade. Mas nada é comparável ao que, por mais de 40 anos, ocorreu na África do Sul.
foto: www.bbc.co.uk
No início do século passado, o território onde hoje conhecemos como África do Sul era um celeiro de conflitos entre europeus (ingleses, holandeses e franceses) e diversas tribos locais, esse era o cenário quando Nelson Mandela [1918] nasceu. Desses conflitos restou o domínio territorial dos brancos e, naquele momento, uma inevitável segregação racial em relação aos nativos, assim como conhecemos nas Américas, Austrália, Nova Zelândia, etc. Desde seu nascimento, Madiba (como Mandela também é conhecido por seu povo) nunca viveu livremente, principalmente após 1948, quando o apartheid (vida separada) foi institucionalizado como política social. O regime de segregação racial obrigava os negros a viverem separados, e os brancos controlavam o poder, enquanto o restante da população (negros) não gozava de vários direitos políticos, econômicos e sociais.
Ainda estudante de Direito, Mandela começou sua luta contra o regime segregacionista. No ano de 1942, entrou efetivamente para a oposição, ingressando no Congresso Nacional Africano (movimento contra o apartheid). Em 1944, participou da fundação, junto com Oliver Tambo e Walter Sisulu, da Liga Jovem do CNA. Durante toda a década de 1950, Nelson Mandela foi um dos principais membros do movimento anti-apartheid, participou, em 1955, da divulgação da “Carta da Liberdade”, documento pelo qual defendiam um programa para o fim do regime segregacionista. Madiba sempre defendeu a luta pacífica contra o regime, porém em maio de 1960, policiais sul-africanos atiraram contra manifestante negros, matando 69 pessoas. O dia ficou conhecido como “O Massacre de Sharpeville”, e motivou o pacifista a defender a luta armada contra o sistema.
Em 1961, Mandela tornou-se comandante do braço armado do CNA, conhecido como "Lança da Nação", passou a buscar ajuda financeira internacional para financiar a resistência, porém, em 1962, foi preso e condenado a cinco anos de prisão por incentivo a greves e viagem ao exterior sem autorização. Dois anos mais tarde, Mandela foi novamente julgado e, desta vez, condenado à prisão perpétua por planejar ações armadas, e, sob o número 46664, permaneceu preso na Ilha Robben, de 1964 a 1990. E das ruas, da luta armada, tornou-se mártir da luta anti-apartheid na África do Sul. Mesmo na prisão, se comunicava através de cartas para organizar e incentivar a luta pelo fim da segregação racial no país e, enquanto preso, recebeu apoio de vários segmentos sociais e governos do mundo todo. 
Foram 26 anos de cárcere até que o aumento das pressões internacionais fez com que o então presidente da África do Sul, Frederik de Klerk solicitasse, em fevereiro de 1990, a libertação de Nelson Mandela. Três anos depois, Nelson Mandela e o presidente Frederik de Klerk dividiram o Prêmio Nobel da Paz, concedido a ambos pelos esforços em acabar com a segregação racial na África do Sul. A história prosseguiu e em 1994, Madiba tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul e governou o país até 1999, sendo responsável pelo fim do regime segregacionista sul-africano e também pela reconciliação de grupos internos. Nesse período, sua política agregadora sofreu duras críticas dos negros do país, principalmente daqueles que ainda nutriam aversão aos africânderes, como eram conhecidos os sul-africanos de origem europeia. Essa etapa da história de Nelson Mandela e da África do Sul foi muito bem documentada no filme Invictus, de 2010, dirigido por Clint Eastwood e protagonizado brilhantemente por Morgan Freeman, que conta a história da construção moral, psicológica e espiritual da seleção de rúgbi daquele país (os Springbocks), que sediaria e venceria a Copa do Mundo do esporte em 1995. Afastado da política local desde o fim de seu mandato de presidente, Mandela dedicou-se a causas de várias organizações sociais em prol dos direito humanos e já recebeu diversas homenagens e congratulações internacionais pelo reconhecimento de sua vida de luta pelos direitos sociais, dentre elas a de Alma Mater da Universidade de Fort Hare, Universidade de Londres, Universidade da África do Sul e Universidade de Witwatersrand.


Nelson Mandela vive seus últimos momentos entre nós, pelo menos é desta forma que a mídia sul-africana e internacional vem tratando, e talvez, dependendo do momento que você esteja lendo este artigo, ela já tenha nos deixado. O legado pacifista jamais será apagado, sua tolerância e luta pela igualdade como negro oprimido ou como líder de uma nação de culturas heterogêneas nos serve de lição, de cartilha. Se estamos aqui, nesse mundo, nesse momento, para sermos provados, testados, e para aprendermos, evoluirmos, Madiba e sua vida são um livro de deve acompanhar todos nós. O título desse artigo - "Não há caminho fácil para a Liberdade." – é uma de suas frases mais conhecidas, e combina melhor com a história dele, mas minha preferida é outra, a qual cito para encerrar esse artigo: 

"A educação é a arma mais forte que você pode usar para mudar o mundo."
Nelson Mandela

Um comentário:

  1. Excelente artigo, Danilo! Bela homenagem a um dos grandes lideres do seculo XX.

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